De Como os Darwinistas Sociais São na Verdade Dawkinistas Sociais e a Meritocracia vai Destruir o Mundo como Genes que Querem se Dar Bem
Alguns
anos atrás, checando um portal de direita, pra pesquisar fora da
minha bolha, caí num blogue com a lista dos 10 livros mais perigosos
já escritos. Um deles era obviamente A ORIGEM DAS ESPÉCIES, do
Darwin. Achei engraçado, na época. Hoje já nem tanto, com tanta
gente defendendo criacionismo e literalidade das histórias da
Bíblia, mesmo que Adão e Eva só tenham tido filho homem, o que só
provaria que órgão excretor também reproduz (remeto aqui àquela
famosa fala, mas na verdade, em todos nós, órgão excretor
reproduz. Ou o pastor idiota que falou isso – e a mulher dele -
tem algum orifício extra pra urina, ou eles usam uma seringa pra
coletar esperma diretamente do saco e injetar diretamente no útero...
sei lá, vai ver que é por isso que não tenho filhos).
Mas se o
reaça do blogue achou o Darwin perigoso, foi por popularizar a
impessoalidade da Natureza. O governo do aleatório (outro livro
perigoso, por exemplo, era o do Keynes). Mas o mundo gira, a Lusitana
roda, eu envelheço e começo a achar que de certa forma aquele
ultradireitista talvez estivesse certo. Porque pouquíssima gente na
verdade realmente para pra ler o livro e acaba só ficando com o
mantra “a sobrevivência dos mais fortes” na cabeça. E assim
temos mais um darwinista social, objetivista ou afim.
O Darwin
rodou o mundo pra formular sua teoria por causa da Revolução
Industrial, que tornou relativamente fácil e exequível você
circunavegar o globo. Mas os avanços pós-iluminismo também
propiciaram aventureiros a fazer o mesmo não pra formular teorias,
mas ganhar dinheiro roubando outras sociedades e civilizações que
não buscaram explicações refutáveis para os fenômenos observados
e permaneceram com seus macetes e empirismos.
Como todo
o mundo PRECISA ser o herói de sua própria história, ficava
difícil, digamos, pro Rei Leopoldo da Bélgica justificar o
extermínio de metade da população do Congo só porque queria
din-din-dinheiro (ser rei parece que dá muita despesa). Dominar um
povo só porque eu sou mais forte e, portanto, posso, é algo com que
só os psicopatas mais psicopatas conseguem lidar. Então, se aparece
uma teoria dizendo que os mais fortes sobrevivem e com isso a espécie
toda fica melhor, é perfeito. É só aplicá-la antropologicamente.
Assim
gerou-se boa parte do racismo do século XIX/XX, inclusive o
fascismo. O mais forte sobrevivia, o mais fraco morria e quem se
beneficiava era a espécie, que ficava também mais potente e viril
como um todo. Como quem andava armado era militar, que precisava
malhar pra marchar muito, eles eram os pitboys da época (malhação
entrou em moda no final do século XX, quando começou o alistamento
militar universal pra Grande Guerra que as nações europeias sabiam
que viriam) e passaram a encarnar esse ideal de líderes para um
amanhã racial melhor, daí o fascismo.
Mas
enveredo por digressões. A justificativa moral do darwinismo social
se espraia até hoje pelo conceito simplista de meritocracia e
objetivismo. Curiosamente, Darwin, como acima dito, viajou pelo mundo
todo, mas normalmente filhinhos de papai que não têm conhecidos
fora de seu estrato social (minha empregada!) adoram professar sua fé
nesse credo. O objetivismo, então, é uma aberração entre
conservadores, que normalmente são obcecados pelo cristianismo. Ayn
Rand partia do princípio de que a realidade é objetiva (não tenho
conhecimento de primeira mão de sua filosofia, se alguém quiser me
corrigir, agradeço, mas aparentemente ela passava por cima do fato
de que ela é mediada pelos nossos sentidos, os quais até hoje não
compreendemos direito como funcionam – e com certeza não o fazem
sem a intervenção da consciência; isso pra não falar de física
quântica) e, portanto, a finalidade do indivíduo é sua satisfação
sensória e material. Ninguém deve nada a ninguém.
Essas
ideias todas poderiam ter sido evitadas se as pessoas se tocassem que
o mantra na verdade é a sobrevivência do mais apto. O melhor
adaptado. Que, dependendo de, por exemplo, se viver num lugar com
poucos recursos, poderia significar a sobrevivência do menorzinho
(cf. Dinossauros x mamíferos por volta do fim do Cretáceo). Darwin,
inclusive, enfatizava que a evolução era motivada por alterações
no meio-ambiente. Muitos pássaros, por exemplo, nascem com pés
palmípedes – aqueles com membranas entre os dedos, o famoso pé de
pato. A maioria morre, pois fica difícil decolar do chão ou se
pendurar num galho com aquilo. Mas se um lago enorme se forma no seu
território, você acaba se tornando o rei da cocada preta do lugar.
Você se tornou o mais apto e contou com uma imensa ajuda do seu
meio-ambiente. Ninguém chega a lugar algum só dizendo “vou
evoluir, vou evoluir”, se não houver as condições certas. Como
todo o mundo já explicou aos meritocratas e objetivistas,
networking, condições de estudo, pensamento, e até a baixa
probabilidade de se levar um tiro por conta de operação policial
ajudam muito no sucesso.
Darwin
não sabia o que aprendemos por conta do Mendel, aquele religioso com
cara e óculos de nerd que gostava de brincar com ervilhas –
genética. O mecanismo pelo qual os organismos mudam e se
aperfeiçoam. Só que, à medida em que compreendíamos melhor a
biologia molecular, começamos a ver cada vez mais que a
sobrevivência do mais apto muitas vezes não era a do mais adaptado,
mas só a do mais cruel e impiedoso, e que se dane o resto da
espécie.
Quem
explicou como a mão invisível da evolução na verdade pode botar
pra foder com uma espécie foi o Richard Dawkins. Sim, ele fez alguma
coisa antes de começar a dizer que Deus era feio, bobo e mau (muito
mau) e, após darmos uma rapidíssima vista d'olhos em seu trabalho,
dá pra entender por que ele é tão inamistoso à ideia de
coletivismo ou de um compasso moral na Natureza. Porque, na verdade,
não é a sobrevivência sequer do indivíduo mais apto que conta –
mas a do gene.
O
determinismo genético não é um mecanismo pra espécie sobreviver.
Na verdade, é o inverso. O indivíduo é que é manipulado pelo gene
pra ESTE sobreviver. Um exemplo, como citado por David Deutsch em seu
fantabuloso alfarrábio “O Princípio do Infinito” (“Sapiens”
é pros fracos): imagina uma espécie de pássaro que nidifica em
determinada época do ano porque, quando seus filhotes nascerem, vai
ter comida pra todo o mundo e mais um pouco. Suponhamos então que um
indivíduo – aquele do casal responsável por arrumar a casa –
nasça com uma mutação que o leve a montar o ninho algum tempo
antes do resto da galera. Com isso, mesmo faltando-lhe as viris e
potentes virtudes às quais aludimos anteriormente, dá pra ficar com
o melhor lugar, à sombra, com condução pro supermercado, digo,
pertinho de onde está a fonte de alimentação, essas coisas. Pode
não ter tanta coisa pra comer, mas como ele começa antes do resto,
sozinho, não tem problema.
Com o
tempo, a descendência desse pássaro vai acabar levando a melhor e a
espécie inteira vai acabar nidificando antes do tempo (já li em
algum lugar que uma mutação que confira uma vantagem de 2% ao seu
portador varre o resto em meia dúzia de gerações). Isso vai levar
a um congestionamento enorme pela comida antes do tempo. Metade dos
pássaros vai acabar achando que os filhotes vão ter que comer merda
e a outra metade, que a merda não vai dar pra todos, isso, a velha
piada, sentiram o drama, não? O que acaba levando à diminuição do
número de indivíduos, ou ao tamanho deles, sem contar que, digamos,
se forem insetos a fonte de sua alimentação, na época do ano em
que eles mais abundam não vai ter mais a mesma predação, eles vão
proliferar descontroladamente, acabando com as plantaçõ... CARALHO,
QUE CAGADA FENOMENAL!!!!
E agora,
depois dessa merda toda, imaginem que OUTRO indivíduo nasça com um
gene que o faça nidificar um tempinho mais cedo do que os outros...
Ou seja,
a sobrevivência dos mais fortes, o egoísmo do indivíduo beneficia
a espécie, esquece. Isso é desconhecimento de ciência. A vontade
de um indivíduo de suceder independentemente de qualquer restrição
biológica – e, no nosso caso, também moral e cultural, já que
nossa sociedade se baseia nesses conceitos – não
leva ao benefício da espécie, o bolo não vai crescer pra depois
repartir, ganância NÃO é boa. A
evolução não premia a espécie com a sobrevivência dos mais
fortes. Esses caras espertos, que justificam sua inclemência e
psicopatia com darwinismo social e objetivismo estão errados. Na
verdade, eles são dawkinistas sociais, achando que eles que têm que
se dar bem, fodendo com a espécie, com o futuor, com a sobreviência,
com a Natureza e com tudo em volta.
Uma
analogia social-consumista que poderíamos fazer seria com a
indústria de alimentação. Depois que a Revolução Verde barateou
comida pelo mundo, as alimentíferas saíram todas procurando como
continuar ganhando dinheiro com comida. Inventaram o diet, o light, o
com menos sal, com sal do Himalaia... eu me lembro que, quando no
início dos anos 90, começaram a etiquetar produtos com “contém
gluten”, eu fiquei pensando que logo, logo alguém inventaria uma
dieta que envolvesse não comer glúten. Demorou uns 15 anos, mas é
CLARO que apareceu.
Mas até
a Revolução Verde, quando comida passou a não ser mais tão
lucrativa, ainda reinava um certo bom-senso na venda de refeições e
afins. Certo, lombinho, costela e batatas fritas não formam a dieta
mais saudável do mundo, mas pelo menos você está juntando proteína
com carboidratos e gordura, e talvez, com um pouco de sorte, algumas
vitaminas. Então, de repente, o mundo mudou e dane-se a combinação,
o que interessa é a porra do sabor extremo porque isso é o que
vende.
Pense em
biscoitos recheados. Aqueles que têm um creminho entre duas
bolachas. Na minha infância, eles vinham basicamente em sabor
baunilha e morango. Envolvidos por chocolate. Eu, sendo uma criança,
almejava por um que fosse de chocolate com chocolate, ao que minha
mãe retrucava que era uma bobagem – se eu queria comer apenas
chocolate, que comesse uma barrinha. O que importava era justamente
que o creme tinha um gosto pra combinar com as bolachas diferentes.
Hoje em
dia, obviamente, é mais fácil encontrar biscoito de chocolate
recheado com chocolate. Ou com dose dupla do creme de chocolate.
Diminui o desafio ao seu paladar. Mas, pelo menos, não faz muita
diferença em relação ao seu consumo de calorias e gorduras. Mas e
quando chegamos a coisas como pizza de sushi (um paradoxo tão grande
que sempre acho que se alguém realmente ordenar isso, criará uma
singularidade que sugará todo o Universo conhecido (1))? Ou, pior,
sanduíches de tacos? Ou sanduíches de tacos onde o pão foi
substituído por nuggets de frango? Sim, aquela parte de pouco sabor,
para absorver o molho e dar um descanso ao seu paladar, foi trocada
em vários lugares (nos EUA, não sei muito por aqui) por fatias de
frango à milanesa. Não só é um tremendo estímulo ao vício por
gordura (e falta de sutileza, o que leva ao provincianismo e ao
bolsonarismo, mas isso fica pra outro dia), mas algo que faz mal pra
dedéu e o tipo de pensamento que levou à crise de obesidade e
diabetes na América do Norte.
Mas isso
ainda não é o fim. Mesmo a visão Dawkiniana da evolução hoje em
dia está ficando obsoleta. Parece que não existe mesmo self-made
organismo e a epigenética está trazendo de volta um sujeito visto
com certo respeito como predecessor, mas cuja teoria estava guardada
láááááá no fundo do baú, só como uma curiosidade que alguém
algum dia poderia querer ver.
Lamarck!
O homem que dizia que a girafa tinha pescoço grande após gerações
e mais gerações delas esticarem-no pra comer folhas mais altas.
Sim,
porque parece que, afinal de contas, alterações produzidas pelo
meio nos organismos vivos PODE ser herdada pelos seus descendentes. E
não estou falando de alterações como radiação, ou contaminação
química pesada. Estou falando de alterações como ficar mais úmido,
ou quente, ou denso.
Sim,
porque apesar desse tipo de alteração não causar modificações
nos genes, faz o corpo gerar proteínas e enzimas que bloqueiam ou
incrementam a ação dos genes. A famosa expressividade, pois não
basta a informação do gene. Não adianta nada você ter um gene pra
ser o Shaquille o'Neal e viver subnutrido, você nunca será pivô na
NBA.
Pesquisas
com drosófilas melanogasters (nossa simpática mosquinha da fruta,
aquela que ultimamente vive voando aqui em casa porque estou em
quarentena e não tenho tempo, conhecimento nem disposição pra
mantê-la impecavelmente limpa o tempo todo) desde os anos 50 já
demonstravam que certas alterações no meio ambiente modificavam a
forma das asas delas. E embora os genes não se modifiquem, esses
bloqueadores ou aceleradores, dependendo da pressão ambiental, SÃO
SIM TRANSMITIDOS AOS SEUS DESCENDENTES, o que, para todos os efeitos
práticos, significa que sim, o pescoço da girafa pode crescer se
ela passar gerações comendo as folhas mais altas.
Enfim,
não só evolução não justifica ganância, meritocracia ou força
bruta como estimuladores da sociedade como sim, também é muito
afetada pelo meio em volta. Onde você nasceu, qual a expressividade
que foi extraída dos seus genes e qual a sua condição física pra
passar isso aos seus descendentes.
Darwin
sempre foi perigoso. Perigoso pros conceitos da época. Perigoso por
ser uma metáfora fácil. Perigoso como um meme de feiquenils. Um
Nietszche da biologia, a justificativa simplista pruma moral
indesculpável. Nada neste mundo é simples, é por isso que aqueles
idiotas que lembram de mais coisas que aprenderam na escola que os
outros às vezes acham que sabem de tudo e dizem coisas como “claro
que sei o que é fascismo, o fascismo é um querendo impor sua
vontade sobre muitos”.
Conhecimento
é poder. Pouco é perigo.
(1) Vai
sobrar a matéria (e a energia) escura(s).
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