O Homem 4D
Assista em https://www.youtube.com/watch?v=lK1efQfqBxs&t=1078s&fbclid=IwAR0pxDO-tXy7ZOD6VQGUF5JTS592dKn_PdXp-4A1cAnKnNl6b2Y3e-PpvYU
Ainda me preparando pra ver Vastidão da Noite, ontem foi dia de mais uma ficção científica americana dos anos 50, com cientistas que se tornam monstros, vítimas da própria criação. Mas essa fita é MUITO superior à que recomendei ontem (Kronos). Estava há muito tempo querendo conferir O HOMEM 4D depois de um artigo do Glenn Erickson, meu crítico online favorito (www.cinesavant.com). Não é uma obra-prima, é uma produção independente B do mesmo cara que fez A Bolha Assassina, mas é muito mais avançada tecnicamente, artísticamente e visualmente. Pra começar, com uma cristalina cópia no Vocetubo, dá pra ver que a produção foi feita com cuidado, atenção e pretensão, visíveis já nos intrigantes créditos iniciais. Que, como quase tudo no filme, não são só bonitinhos, são TEMATICAMENTE integrados à história.
Enquanto mesmo Kronos – e a maioria das ficções científicas dos anos 50 – têm pouco conflito além de correr atrás do monstro e ficam enrolando com longas cenas de exposição, O HOMEM 4D passa inteiro de maneira indolor, por conter ininterrupta ação dramática (e pouca física). Logo na primeira cena, o brilhante, porém indisciplinado Toni Nelson (um canastrão James Congdon, única nota destoante num elenco redondinho) põe fogo num laboratório tentando recriar seu experimento em que foi capaz de fazer um lápis atravessar uma placa da aço. Demitido, provavelmente por justa causa, vai procurar seu irmão Scott (Robert Lansing, estreando no cinema), mais brilhante e disciplinado – disciplinado talvez até demais, deixando outros levarem os créditos por suas descobertas e indiferente ao assédio que sua noiva (Lee Meriwether, também estreando no cinema) sofre dos colegas. Portanto, coerentemente, sua última conquista foi a criação de um material denso e impenetrável – a cargonita (em nome de seu chefe, dr. Carson, que recebe as honras da imprensa).
Então, logo de cara, temos o conflito do filme em termos coerentes com o tema. Um irmão fogoso, incontrolável, extrovertido, que quer se tornar o Penetrador Universal, e outro introvertido, frio (e, como sugerido pelo filme, possivelmente virgem), até mesmo submisso. Que cria o objeto que não reage com nada e não pode ser penetrado (ou emocionalmente tocado). Logo no jantar em que o irmão tímido Scott apresenta sua noiva (Lee Meriwether, cujo personagem é coerentemente chamado de Linda) a Toni, este fica rabiscando distraidamente seu experimento e, quando instado por Linda a mostrá-lo, Scott diz que é o “auto-retrato” de Toni. A figura é de um pênis, digo, um lápis ereto enfiado numa placa de aço. Se isso não for um símbolo fálico, eu me chamo Lacan.
Os irmãos discutem sobre a plausibilidade do projeto de Toni, com Scott dizendo que seria alquimia e não ciência. O que é irônico, porque mais tarde Toni conta que já conseguiu penetrar uma placa de aço com um lápis – através de força de vontade. E, como sabe quem conhece algo mais de alquimia do que leu em histórias em quadrinhos, o objetivo dos alquimistas não era transformar chumbo em ouro pra levantar uma grana, mas sim como confirmação de que haviam atingido um patamar de conhecimento em que podiam simplesmente obter a transmutação por... força de vontade!
A partir daí, a trama se desenrola, sempre carregada dramaticamente pelo desenvolvimento do tema e dos personagens, e não por uma sequência aleatória e formulaica de eventos. Linda obviamente começa a sentir atração por Toni, uma versão mais livre e excitante de Scott – e numa bela metáfora visual, em que temos a visão subjetiva dos dois num carrossel, pra em seguida ela querer brincar com um bilboquê num poste (!!). Talvez até parte dos problemas de Scott seja homossexualismo reprimido. A cena em que Linda e Toni interagem animadamente num piquenique (ela de maiô) e ele sai andando resignado, pedindo pro irmão depois levar a moça pra casa, me lembrou a cena de Fama em que o ruivinho entende que é gay ao ver a moça por quem achava que sentia atração agarrar o comediante latino e vai embora, deixando a chave pros dois.
Traição, aliás, é outro dos temas do filme, com cartazes avisando pra se tomar cuidado com espiões e traidores em várias cenas dos laboratórios. O chefe trai seus cientistas, o assistente trai seu chefe (no trabalho e no amor), um irmão trai a confiança do outro e Linda trai Scott. Essa última leva Scott, num frenesi de ciúmes, a tentar o experimento do irmão. E, tendo uma mente muito mais concentrada (como a Cargonita), ele consegue fazê-lo. Fiel às metáforas sexuais e emocionais da fita, ao conseguir sua primeira penetração, ele faz tudo errado e, em vez de introduzir apenas o pênis, digo, o lápis, acaba enfiando a mão inteira e ficando com ela presa. Desajeitado, inexperiente, sem compreender a mecânica – e o prazer! - da coisa. Um reflexo da cena anterior em que finalmente resolve pedir Linda em casamento. Mas, ao descobrir o mundo da extroversão (e do sexo), ele descobre que há um preço a pagar.
A fita é tematicamente coerente até o fim, visualmente muito cuidada prum filme de baixo orçamento, com quase todos os atores na nota certa (com exceção do James Congdon e uma menina num bar), efeitos especiais quase sempre esplêndidos presse nível de produção, e ainda com diversas metáforas visuais e provocações temáticas – a carta que não é lida, o primeiro roubo de Scott ser uma maçã, o reencontro com a garotinha – o velho clichê da menininha encontrando o monstro, o não-encontro sexual de Scott, sua imaterialidade (puro espírito?) tornando-o uma ameaça incontrolável. A ideia de ser liberado fisicamente do superego não é nova, vem de O Homem Invisível, do H. G. Wells, mas nem o longa do Verhoeven, explicitamente construído sob essa ótica, explorou tão bem as possibilidades. Como diz Glenn Erickson, o problema com as refilmagens dos clássicos da ficção científica é que escolhem as obras erradas. Pra que refazer coisas tão redondas como RoboCop ou O Dia em que a Terra Parou (1), quando ideias tão interessantes como as do HOMEM 4D poderiam se beneficiar enormemente de um bom orçamento e maior exibição?
(1) Mesmo eu achando o filme original chato pra burro.

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