A Marca da Mediocridade
Nos anos 70 a turma do Pasquim dizia que “ritiba” em tupi-guarani significava “do mundo”. Nos anos 80, entretanto, a capital do Paraná obteve alguma proeminência por dois motivos: um deles foi Jayme Lerner. Numa época em que os estados mais poderosos votavam firmemente na oposição, Lerner chegou ao Palácio Iguaçu e chegou a ganhar elogios mesmo do pessoal da esquerda, e ainda nos estertores da ditadura militar. Um dos experimentos urbanísticos dele foram corredores exclusivos para ônibus, com paradas onde as pessoas entravam pagando passagem, tornando o embarque rápido e ágil. Se isso soa para você como um “VLT”, aquele tipo de transporte que tem no mundo todo, é porque, sim, a ideia veio exatamente do Lerner.
A outra razão pra Curitiba ser motivo de conversa era por sua vocação para a mediocridade. A cidade era capital não só do Paraná, mas também da mercadologia da época - talvez ainda o seja hoje, mas não se comenta tanto o assunto hoje em dia. Todos os produtos a serem lançados eram testados antes em Curitiba, por terem várias pesquisas determinado que era o lugar ideal para antecipar o sucesso de uma ideia. Afinal, era o lugar mais médio do Brasil.
Os paranaenses efetivamente nunca tiveram uma personalidade forte. A meio caminho entre os paulistas e gaúchos, e sem se tornarem balneário de argentinos, como Santa Catarina, juntando-se muito tarde à farra do café, já em pleno século XX, até em suas crises demonstrava sua vocação para um ecletismo regional, tendo desde uma guerra por causa de um líder religioso carismático até outra por conta de tenentes tenentistas (desculpa, não resisti). Economicamente bem resolvido, mas sem nunca despontar política ou culturalmente, o Paraná acabou fazendo de sua capital um monumento ao mediano. Gostos medianos, valores medianos, pessoas medianas. O perfeito resumo da regularidade brasileira.
Foi nessa terra que os Moros e os Deltans cresceram. O lar da mediocridade nacional. Em plena década de 80, justamente quando os prédios começaram a ser gradeados e os condomínios, fechados - quem viveu nos anos 70 lembra que todas as portarias eram tão arreganhadas que um dos maiores temores das famílias era ver suas casas invadidas sem aviso por vendedores de enciclopédias. Sim, porque qualquer um podia entrar num edifício e bater à sua porta sem dar satisfação a ninguém. O que começou a acabar com o êxodo rural e consequente favelização urbana movida pelo milagre econômico.
Hoje em dia, por causa das redes sociais fala-se muito em “bolhas de informação”, com as pessoas só interagindo com gente semelhante e lendo somente quem concorda com eles. Balela. Vivendo na terra da mediocridade, na ascensão do condomínio fechado, esquece essa história de conviver com o diferente. Em 1982 entrei na melhor faculdade de Jornalismo no Rio de Janeiro e, quando um professor perguntou quem ali lia jornal todo o dia, pouco mais de metade da galera levantou a mão. Imagina então quem queria apenas ser engenheiro. E jornalismo televisivo, por motivos óbvios - pouco tempo, poucos canais (na era da tevê aberta), pouca capacidade de desenvolver uma ideia complexa - nunca foi diverso.
Não é à toa que essa geração que cresceu assim criou a República de Curitiba. Esse povo que nos deu a Lava-Jato é a nossa pizza de sushi, nossa contradição em termos. São os luminares da mediocridade. Os apóstolos do provincianismo - em vez de ganharem o mundo, seu objetivo é afastá-lo para a manutenção do status quo. O Marreco diz em entrevistas que seus livros preferidos são as biografias (mais anódino do que isso, só manuais de autoajuda). E, ainda assim, é incapaz de citar quais desses títulos teria lido ultimamente. Para tentar vender seu “Pacote anticrime” (um nome que é uma declaração de mediocridade), explica que a polícia poderá agir como os agentes especiais de filmes americanos.
Foi dessas pessoas que nos tornamos reféns. São aquelas almas mornas que o Anjo da Lacedomônia tanto abominava, preferindo até o saboroso calor dos grandes pecadores. É a gente que viaja para ir a shoppings - e, sim, museus e outros pontos turísticos - mas passam uma tarde em cada. Não enchem a cara com algum gringo suspeito que acabaram de conhecer ou se envolvem em aventuras com gente com cara, cheiros, hábitos e línguas diferentes. São aqueles que voltam ao hotel no fim da noite e veem alguma série na Netflix pra relaxar antes de dormir. São aqueles que têm que trabalhar a vida inteira, porque não sabem o que fazer da vida quando se aposentam. Não têm nenhum interesse, nenhum hobby, nenhum talento. Não à toa tiveram tanta facilidade em se associar com o Inominável.
Sem leitura, sem interação com pessoas diferentes, sem informação, por mais destaque em seu trabalho que se consiga, ou por melhor que sua família esteja economicamente, o provincianismo vai permear seu pensamento. Não é à toa que Olavo de Carvalho tanta impressão causou nessas pessoas. Para quem nunca viu nada parecido antes, ele deve parecer um polímata, dominando assuntos como geografia, história, cosmologia (relativamente falando, é claro). Ele, pelo menos, tem um projeto, um plano - no sentido que Charles Manson também era um líder carismático que tinha um projeto, um plano. Os provincianos não têm nenhum plano a não ser manter tudo como está. Como Charles Duell, diretor do Instituto de Patentes americano em 1899, eles acreditam que nada mais há a ser inventado. Que pintores bons são aqueles que fazem quadros que parecem fotos. Que o rock é a música popular definitiva e derradeira.
A República é de Curitiba, a cidade que se tornou o monumento à mediocridade e nessa tresloucada corrida rumo a ela, à qual ela nos arrastou, estamos destruindo um país que tentava se amoldar a todas as mudanças culturais, sociais e econômicas dos últimos 20 anos. E tudo isso à toa, porque, nas palavras do famoso astrônomo Neil deGrasse Tyson num famoso tuíte, a força irresistível vence. Sempre.
(Referência à velha pergunta retórica, “o que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto inamovível?)
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